A cidade de Santiago vive um movimento crescente de reconexão com seus espaços naturais, impulsionado por iniciativas comunitárias que buscam reverter décadas de degradação ambiental. Em uma área urbana marcada pela pressão imobiliária e pelo avanço da poluição, artesãos locais passaram a atuar diretamente na recuperação de um humedal situado no entorno do canal San Ignacio, na região metropolitana da capital chilena. A ação chama atenção por unir preservação ambiental, identidade cultural e participação social em um dos maiores centros urbanos do país.
O trabalho desenvolvido em Santiago tem como base o uso da totora, uma planta típica de áreas alagadas que desempenha papel fundamental na filtragem natural da água. Ao invés da remoção completa da vegetação, os artesãos utilizam técnicas tradicionais de manejo que respeitam o ciclo natural da planta. Essa abordagem contribui para a melhoria da qualidade hídrica do canal e fortalece o equilíbrio ecológico em um espaço que por muitos anos foi tratado apenas como área degradada.
Durante décadas, o canal San Ignacio acumulou resíduos, sedimentos e impactos provocados por atividades humanas desordenadas. A ausência de políticas públicas eficazes e de fiscalização contínua agravou a situação ambiental da região. Com o passar do tempo, no entanto, moradores e coletivos ambientais passaram a reconhecer o potencial do humedal como um elemento estratégico para a sustentabilidade urbana de Santiago, dando início a um processo gradual de recuperação.
A presença ativa da comunidade transformou a percepção sobre o espaço. O humedal deixou de ser visto como um problema urbano e passou a ser reconhecido como uma solução ambiental. Em Santiago, essa mudança de olhar contribuiu para ampliar o debate sobre o papel das áreas naturais dentro das cidades, especialmente em um contexto de mudanças climáticas, aumento das temperaturas e escassez hídrica cada vez mais frequente no Chile.
Além dos benefícios ambientais, a recuperação do humedal também gerou impactos sociais relevantes. O local passou a receber atividades educativas, visitas escolares e ações de conscientização ambiental. Em uma capital densamente povoada como Santiago, a existência de um espaço vivo de aprendizado ambiental fortalece a formação cidadã e aproxima a população dos temas ligados à preservação, biodiversidade e uso responsável dos recursos naturais.
O projeto também reforça a importância dos conhecimentos ancestrais no planejamento urbano contemporâneo. As técnicas utilizadas pelos artesãos demonstram que soluções sustentáveis não dependem apenas de grandes obras ou investimentos elevados, mas podem surgir da valorização de saberes tradicionais adaptados à realidade atual. Em Santiago, essa integração entre tradição e inovação tem se mostrado um caminho eficiente para a regeneração ambiental.
Com o avanço da iniciativa, o humedal passou a exercer funções ecológicas fundamentais, como a regulação da água, o abrigo de espécies e a melhoria do microclima local. Esses efeitos positivos reforçam o entendimento de que os humedais urbanos são infraestruturas naturais essenciais para cidades modernas. A experiência vivida em Santiago começa, inclusive, a inspirar discussões semelhantes em outras comunas da região metropolitana.
A recuperação do humedal urbano representa mais do que uma ação ambiental pontual. Em Santiago, ela simboliza uma nova relação entre cidade e natureza, baseada na corresponsabilidade, no cuidado coletivo e na valorização do território. O processo demonstra que, mesmo em ambientes urbanos complexos, é possível promover transformação real quando comunidade, cultura e consciência ambiental caminham juntas.
Autor: Jerome Rutland
